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Recensão

 


Lendo a Zambézia: Processos de Hibridação
em O Alegre Canto da Perdiz

por Ana Luísa Teixeira

Recensão
Paulina Chiziane, O Alegre Canto da Perdiz, Lisboa, Caminho, 2008, 342 páginas

 

 

O Alegre Canto da Perdiz

 

 

 

 

     O Alegre Canto da Perdiz, último romance de Paulina Chiziane publicado em Portugal em 2008, reafirma a centralidade da escritora na consolidação de uma voz feminina autoral, em Moçambique.
     Sem nos determos no debate sobre a existência, ou não, de uma escrita feminina que relaciona conteúdos temáticos e formatos estilísticos à identidade de género da voz autoral, constatamos uma vez mais que a narrativa de Chiziane continua a materializar a condição da mulher moçambicana, contextualizando-a social e culturalmente.
     Desde o seu primeiro romance, Balada de Amor ao Vento (com uma primeira edição de autor em 1991, e publicado em Portugal em 2003), que Chiziane tem vindo a construir universos femininos desenhados em constantes fusões entre tradição e modernidade, que proporcionam um encontro criativo entre ficção, realidades históricas e conceptualizações antropológicas: a guerra civil, em Ventos do Apocalipse (1999), a emergência de uma lógica neo-colonial em O Sétimo Juramento (2000), a reinvenção idiossincrática em Niketeche, Uma História de Poligamia (2002).
     

"A condição feminina potencia um sofrimento indiscutível, que se não pauta em exclusivo pela cor da pele: os homens negros sofrem, as mulheres sofrem"

      Em O Alegre Canto da Perdiz, a autora esculpe um diálogo entre realidades cronológicas distintas, materializadas numa construção multi-geracional, expressa em vozes femininas. A história de Maria das Dores, mulher que surge seminua nas margens do rio Licungo, é ela própria uma metáfora da busca de entendimento identitário. Personagem que causa repulsa e escandaliza as mulheres “...porque o nu de uma se reflecte no corpo da outra...” (Chiziane, 33), e cujo comportamento conduz à categorização de louca, tem “um nome belíssimo, mas triste. Reflecte o quotidiano das mulheres e dos negros”. (Chiziane, 16). O narrador distingue, desde logo, processos de discriminação racial e de género, sendo que a condição feminina potencia um sofrimento indiscutível, que se não pauta em exclusivo pela cor da pele: os homens negros sofrem, as mulheres sofrem. Intercalando capítulos sugestivos de uma reflexão sobre a história do papel civilizacional da mulher, frequentemente informados por uma estrutura de enunciação oral, Chiziane universaliza a condição feminina, além de raças, etnias, poder económico ou social.
     É justamente da vivência do sofrimento feminino que Chiziane nos fala, numa construção narrativa analéptica que nos transporta para o universo de Serafina, mãe de Delfina, mulher negra que rejeita a cor da pele e o posicionamento socioeconómico a ela inerente, e cujo amor por um homem negro desconstrói momentaneamente o seu projecto de “apuramento da raça” e de subsequente ascensão social. A sua cedência à supremacia do sentimento por José dos Montes, e a sua posterior entrega ao branco Soares, veículo de poder social e económico, dão forma à natureza paradoxal que caracteriza um terceiro espaço identitário (1), enquanto fruto do processo de hibridação. Num diálogo pleno de significado, mãe e filha exprimem diferentes concepções do feminino, sendo que, na sua essência, ambas se conjugam na valorização da mestiçagem como ponte para a ascensão social e económica:

— Por que não me fizeste com um branco, mãe? Felizes são as brancas e as mulatas, que nasceram com diamantes no corpo.
— Para que essa tortura? És preta e ainda bem ... Não faltará um branco para morrer de amor por ti, minha filha.”
(Chiziane, 84)

     Delfina metaforiza a “coisificação” do corpo feminino. O corpo feito objecto que, prostituído, conduz paradoxalmente à independência económica. O corpo feito objecto que gera crianças negras, Maria das Dores e Zezinho, mas também tem o poder de gerar filhos mulatos, Luizinho e Maria Jacinta, canais de um pretenso “apuramento racial”. Em paralelo, Chiziane não exclui do corpo masculino o valor simbólico do processo de miscigenação. É em Lavaroupa Silveira (cujo próprio nome evidencia a subjugação colonial, invalidando o crescimento de uma identidade autónoma), pai próspero de uma família multirracial, e confidente de José dos Montes que Chiziane recria simbolicamente o lado positivo de um tecido nacional racialmente heterogéneo.
   A justaposição identitária que informa um espaço de indefinição idiossincrática está particularmente representada nas irmãs Maria das Dores e Maria Jacinta. Evocando inter-textualmente as irmãs Sá Amélia e Sá Caetana em As Visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho (2), Maria das Dores e Jacinta vivem uma infância de cumplicidade, pontuada por recorrentes episódios de conflito. Jacinta testemunha o olhar acusatório dos colegas do seu pai branco, Soares, que apesar de negar a paternidade de uma “negra”, perde estatuto profissional. Vê igualmente o seu avô negro ser chicoteado por um polícia branco, que o acusa de ter roubado uma “criança branca”. Maria das Dores constata a discriminação com base na cor, que a sua mãe, Delfina, não esconde no seu modo diferente de “amar” os filhos. É entregue ainda menina por sua mãe ao velho Simba, integrando uma realidade matrimonial poligâmica, onde as dependências químicas se tornam um enganoso escape, que só se concretiza na sua fuga com os filhos gerados dessa relação.

"A fusão de mundividências distintas concretiza-se na coexistência do Catolicismo com conceptualizações tradicionais do sobrenatural"


    As consequências do processo de hibridação desenvolvidas em O Alegre Canto da Perdiz não se limitam à leitura do corpo mestiço enquanto espelho do encontro inter-racial, incluindo, também, uma leitura de encontros interculturais. A fusão de mundividências distintas concretiza-se na coexistência do Catolicismo com conceptualizações tradicionais do sobrenatural, representadas em particular pelos curandeiros Simba e Moyo. Significativamente, José dos Montes conquista o estatuto de assimilado numa tentativa desesperada de reconquistar Delfina, através da negação da sua africanidade. Em consonância com a procura constante de um sentido de (falsa) pertença, José dos Montes alia-se às forças coloniais na guerra da independência. A sua artificial reconstrução identitária atinge o auge no assassinato de Moyo, metaforizando um corte com as raízes africanas.
      A fuga, que se consolida na deslocação espácio-temporal de Delfina e de Maria das Dores, revela-se como um percurso de entendimento identitário. A realidade do fim do período colonial, que acompanhou a existência de Delfina, dialoga com a contextualização pós-colonial, que transformou a guerra civil num cenário dominante no percurso de Maria das Dores. “Teresas Batistas, cansadas de guerra”, Delfina e Maria das Dores buscam um sentimento de conexão e pertença, que o reencontro com um renovado sentido de maternidade possibilita. A resolução catártica final, num período em que o Acordo de Paz pusera já fim ao conflito no país, reúne Delfina e José dos Montes aos filhos Maria das Dores, Maria Jacinta e Zezinho. A seu lado, Simba redescobre o sentido da paternidade reconhecido na presença dos seus filhos, gerados por Maria das Dores, Benedito, Fernando e Rosinha. A reconciliação final, e o reconhecimento dos laços de um passado que une as vozes finalmente juntas, afirmam-se como sinédoque de uma harmonização racial e cultural que se anuncia. O curandeiro Simba deu vida ao padre Benedito e ao médico Fernando. Esbatem-se as fronteiras outrora balizadas por tonalidades corpóreas. A cidade do Gurué afirma-se na sua condição de onomatopeia do canto da perdiz. A Zambézia, como ditou o poeta Rui de Noronha, numa invocação, ela própria culturalmente híbrida, “surge et ambula”.

(1) V. Homi Bhabha, The Location of Culture, New York & London, Routledge, 1994.
(2) Lisboa, Caminho, 2004

Paula Chiziane

 


 

 

 

 

"Chiziane tem vindo a construir universos femininos desenhados em constantes fusões entre tradição e modernidade"

 

 

 

 

 

 

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